terça-feira, 19 de outubro de 2010

Da reunião na creche - parte 2

A reunião começou com os pais todos sentados naquelas cadeiras minusculas de criança a olhar para a Directora do infantário que dava um (um não, três ou quatro!) raspanetes aos pais. Ou porque não levavam os medicamentos identificados e com a devida dosagem para as educadoras darem aos meninos. Ou porque os meninos chegam sistematicamente depois da hora estipulada por eles para os receber. Ou porque é preciso dar banho às crianças e trazer roupa e batas limpas de casa. Ou porque não podem trazer os meninos com febre ou doenças contagiosas para a creche porque contagiam os outros todos. Mas um raspanete a sério, a insistir sempre no mesmo. Eu, julgando que estava entre adultos, comecei a fazer a minha cara n.º 31 de quem estava a gostar pouco do assunto e que já se estava a passar.
Falar em dar banho às crianças nos dias de hoje? Mas alguém não dá? Não digo todos os dias, o João já adormeceu no carro ou no sofá sem banho e não foi por isso que o acordei ou vou acordar no futuro. E tudo o resto... são coisas básicas. Os atrasos ainda posso perceber, mas o resto?

Depois percebi que estes recados todos eram direccionados. A um pai e uma mãe. Um casal especifico que tem um menino que aos 18 meses pesa mais de 14kg. Um menino que chega sistematicamente atrasado porque a mãe (que não trabalha) é vista na zona a ver montras ou a deambular pela rua com o bebé ao colo. Um menino ao qual os pais se recusam dar supositórios Ben-u-ron de dosagem superior a 125mg (aconselhado apenas até aos 10kg)porque ele é muito pequenino. Um menino que passa dias sem ver água no corpo e que aparece com a mesma bata que usou na semana anterior. Um menino a quem a Directora já tirou algumas vezes a bata em dia de sol só para lavar. Um menino que, no berçário, levava na mochila para o lanche um Bolicao ou aparecia logo de manhã de pacote de batatas fritas Matutano na mão. Isto no berçário, com menos de 12 meses. Um menino que eu já vi sentado no separador central (não, não estava no passeio) de uma rua movimentada perto do infantário, enquanto a mãe procurava não sei o quê no saco. E já foi há uns meses, era bem pequeno.

E no fim disto tudo tenho pena daquela família. Porque das poucas vezes que falei com a mãe pareceu-me claramente que ela tinha um pequeno atraso mental real. E porque nesta reunião pareceu-me que o pai, que não conhecia, tinha um atraso mental mas daqueles que só nos apetece dar-lhe com um pau pela cabeça abaixo. E porque aquele menino corre riscos reais. E porque todos os meninos deviam ter pais conscientes que os protegessem. E porque não deveria ser a Directora da creche a deitar fora Bolicaos para o bebé não comer ou a lavar a bata ou a relembrar aos pais que devem dizer à educadora a dosagem e o horário em que o menino toma um medicamento. Lá em casa não somos perfeitos, mas há coisas básicas, não há?

3 comentários:

Pat disse...

É! Infelizmente, hoje em dia, ainda existem casos desses! Sorte a do miúdo que está nessa creche em que lhe colmatam essas necessidades básicas!
Dá um nó no coração não é?

Hoje parece-me a mim que o raspanete que vou levar vai ser o das horas!! É que por mais que tente nunca chego dentro do horário estipulado!! :S

Patricia disse...

Nem mais amiga, nem mais. Perfeitos não somos, mas fazemos o melhor que sabemos e podemos... Infelizmente há casos assim. Bjcas

Cláudia disse...

Esses casos arrepiam-me... E será que depois disso tudo aquela criança recebe o amor que precisa? Sim, porque com pais assim desleixados é coisa que me deixa sempre a pensar...

nenhuma criança deveria ser sujeita a isso. Todas deveriam ser amadas e protegidas...